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Quando ninguém cresce sozinho: o associativismo como ativo de um território

Foto do escritor: Felipe Zardin
Felipe Zardin
13 de ago.
7 min de leitura

De organizações comunitárias a cooperativas e entidades empresariais, os números mostram que a participação coletiva continua sendo uma força relevante para o desenvolvimento.


Na Serra Gaúcha, essa lógica está profundamente ligada à economia e à identidade do território.

Existe uma contradição interessante no mundo dos negócios contemporâneo. Nunca tivemos tantas De organizações comunitárias a cooperativas e entidades empresariais, os números mostram que a participação coletiva continua sendo uma força relevante para o desenvolvimento. ferramentas para trabalhar de forma individual. Plataformas digitais permitem vender sem loja, divulgar sem depender exclusivamente dos meios tradicionais, criar novos produtos com apoio de inteligência artificial, aprender a qualquer hora e estabelecer relações comerciais que atravessam fronteiras. Ao mesmo tempo, em meio a tanta autonomia, cresce a importância de algo que não pode ser automatizado com facilidade: a capacidade de construir relações e participar de redes.


Talvez seja por isso que falar sobre associativismo em 2026 não seja olhar para uma prática do passado. É observar uma forma de organização que continua produzindo impacto econômico e social e que pode ganhar ainda mais relevância em um cenário de transformações rápidas.


O associativismo está presente em diferentes setores da sociedade


Os dados mais recentes divulgados pelo IBGE ajudam a dimensionar esse universo. Em 2023, o Brasil tinha 596,3 mil unidades locais de Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos (FASFIL), um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. Essas organizações estão distribuídas por diferentes áreas, como cultura e recreação, educação, religião, desenvolvimento e defesa de direitos e associações profissionais e patronais. Juntas, elas empregavam 2,7 milhões de pessoas.


Mais do que apresentar um grande número de organizações, o levantamento mostra a diversidade assumida pelo associativismo brasileiro. Ele está presente em diferentes setores, reúne profissionais, empresas, empreendedores, comunidades e instituições e cria estruturas para organizar interesses compartilhados. Em muitos casos, essas redes surgem porque determinados desafios, oportunidades ou necessidades não podem ser enfrentados individualmente.


Essa característica ajuda a compreender o associativismo para além da ideia de representação institucional. Quando pessoas e organizações se unem para compartilhar recursos, conhecimento, oportunidades ou capacidade de negociação, estão construindo uma infraestrutura de colaboração que também influencia o funcionamento econômico e social de um território.


Um movimento que ultrapassa fronteiras


A participação coletiva não é uma particularidade brasileira. Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado em 2024, estimou que pouco menos de um quarto da população dos países da organização participa formalmente de atividades voluntárias ao menos uma vez por mês. Em escala global, a estimativa ultrapassa 860 milhões de pessoas.


A pesquisa chama atenção para a relação entre participação comunitária, desenvolvimento local e coesão social. Em um contexto marcado por transformações tecnológicas, mudanças no mercado de trabalho e novas formas de interação, as redes presenciais e as relações de confiança continuam desempenhando um papel importante na capacidade de comunidades e territórios responderem às mudanças.


Essa questão ganha ainda mais relevância quando observamos uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente. Estar conectado, porém, não significa necessariamente estar vinculado. A quantidade de contatos disponíveis pelas plataformas digitais não produz automaticamente relações de confiança, colaboração ou pertencimento. Comunidades precisam de encontros, interesses compartilhados e algum nível de compromisso entre seus participantes.


É justamente nesse ponto que o associativismo encontra uma nova oportunidade.


Na Serra Gaúcha, cooperação também é economia


A Serra Gaúcha oferece um exemplo concreto dessa dinâmica. Dados do Sistema Ocergs mostram que o Corede Serra reunia, em 2025, 31 cooperativas e 293.160 cooperados. Essas cooperativas empregavam 9.173 pessoas e movimentaram R$ 9,4 bilhões no ano, diante de R$ 8,1 bilhões em 2024. O número de cooperados também cresceu no período, passando de 282.342 para mais de 293 mil.


Os números mostram que a cooperação não ocupa uma posição periférica na economia regional. Ela gera empregos, movimenta recursos, organiza cadeias produtivas e reúne centenas de milhares de pessoas em torno de estruturas econômicas compartilhadas.


Quando ampliamos esse olhar para o Rio Grande do Sul, a dimensão fica ainda mais evidente. Em 2025, o cooperativismo gaúcho reunia mais de 4,4 milhões de cooperados e 375 cooperativas, presentes em 490 dos 497 municípios do Estado. O movimento registrou R$ 103 bilhões em ingressos no período.


Na prática, isso significa que a cooperação está incorporada à dinâmica econômica de boa parte do território gaúcho. Não se trata apenas de um modelo organizacional, mas de uma forma de produzir escala, compartilhar riscos, ampliar acesso a recursos e construir competitividade.


A força do associativismo empresarial


Na Serra Gaúcha, o associativismo empresarial também demonstra como a articulação entre empresas pode produzir resultados que dificilmente seriam alcançados de forma isolada. A Microempa, por exemplo, reúne mais de 3 mil empresas associadas e mantém uma estrutura de núcleos que aproxima empresários em torno de interesses e desafios comuns. São mais de 270 empresas participantes dos 15 Núcleos Setoriais da entidade, espaços voltados à troca de experiências, à construção de soluções e à geração de novas oportunidades.


Esse tipo de organização ganha ainda mais relevância quando olhamos para resultados concretos. Entre 2021 e 2024, por meio do PEIEX, programa voltado à preparação de empresas para o comércio exterior, 157 empresas foram capacitadas em municípios atendidos pela Microempa. Desse grupo, 38 passaram a exportar diretamente, movimentando R$ 147 milhões em exportações ao longo de três anos. O exemplo mostra que uma rede empresarial pode fazer mais do que aproximar pessoas: pode ampliar competências, abrir mercados e transformar conexões em negócios.


Ao mesmo tempo, existem desafios que ultrapassam os limites de qualquer empresa individual. Infraestrutura, logística, formação profissional, turismo, competitividade e desenvolvimento regional dependem de articulação entre diferentes organizações e, muitas vezes, entre diferentes municípios. É nesse contexto que o associativismo ganha uma dimensão estratégica: ele cria condições para que empresas deixem de olhar apenas para aquilo que conseguem resolver individualmente e passem a construir respostas para questões que pertencem ao território como um todo.


É nesse ponto que a ideia de comunidade empresarial se aproxima da ideia de território. Uma região economicamente forte não depende apenas da quantidade de empresas que possui, mas também da qualidade das conexões que consegue estabelecer entre elas.


Um território também é feito de conexões


Quando pensamos em um território, normalmente olhamos para aquilo que é mais visível: sua infraestrutura, suas empresas, seus recursos naturais, sua localização, seus indicadores econômicos. Mas existe outra dimensão, menos tangível e igualmente importante: a qualidade das relações entre os diferentes atores que fazem parte daquele lugar.


Um território no qual empresas conversam entre si, instituições de ensino se aproximam do mercado, entidades compartilham conhecimento, empreendedores encontram oportunidades de colaboração e organizações trabalham em torno de objetivos comuns desenvolve uma capacidade que nenhuma empresa isoladamente consegue construir.


É nesse ambiente que comunidades empreendedoras ganham significado. Uma rede pode aproximar um empresário de um fornecedor, um profissional de uma oportunidade, uma iniciativa cultural de uma empresa, uma instituição de ensino de um problema do mercado ou uma cidade de um novo projeto.

O valor da comunidade está justamente nessa capacidade de criar conexões que dificilmente aconteceriam da mesma forma de maneira isolada.


Por isso, quando falamos em territórios criativos, não estamos falando apenas de lugares com eventos culturais, espaços de inovação ou concentração de negócios criativos. Estamos falando de territórios capazes de conectar pessoas, conhecimento, capital, cultura e oportunidades de maneira produtiva.


O associativismo também precisa se reinventar


Mas reconhecer a força do associativismo não significa imaginar que seus modelos tradicionais estejam automaticamente preparados para o futuro. As próprias organizações associativas enfrentam o desafio de demonstrar valor em um cenário no qual as pessoas têm acesso a mais informação, mais possibilidades de escolha e novas formas de estabelecer conexões.


Uma pesquisa realizada em 2025 com organizações associativas na Austrália mostrou, por exemplo, que restrições orçamentárias estavam entre os principais fatores associados à não renovação de associações. O dado aponta para uma questão que vale também para outras realidades: por que uma pessoa ou uma empresa deveria continuar pertencendo a uma determinada rede?


A resposta provavelmente não pode estar apenas na tradição ou na representatividade.


As comunidades precisam entregar aprendizado, conexões, oportunidades, visibilidade, participação e resultados percebidos por seus membros. A associação do futuro talvez seja menos uma estrutura que reúne pessoas e mais uma plataforma capaz de produzir valor a partir das relações entre elas.


Esse movimento já pode ser percebido em muitas redes empresariais e comunidades empreendedoras que passaram a atuar não apenas como espaços de representação, mas também como ambientes de aprendizagem, negócios, inovação e construção de projetos coletivos.


Ninguém cresce completamente sozinho


Existe uma narrativa contemporânea do empreendedorismo muito centrada na figura do indivíduo: o fundador, o especialista, o criador, a marca pessoal, o profissional independente. A valorização da autonomia faz sentido em um cenário no qual a tecnologia permite que uma única pessoa tenha acesso a ferramentas que antes estavam disponíveis apenas para organizações maiores.

Mas autonomia e colaboração não são opostos.


Na medida em que os negócios se tornam mais complexos, a capacidade de construir boas redes também se torna estratégica. Conhecimento, inovação, oportunidades e recursos circulam por relações, e territórios competitivos dependem cada vez mais da capacidade de conectar diferentes competências.

Isso ajuda a explicar por que o associativismo continua relevante.


Seu valor não está apenas em reunir pessoas que possuem interesses semelhantes, mas em criar condições para que elas possam fazer juntas aquilo que seria mais difícil, mais caro ou simplesmente impossível de realizar sozinhas.


Na Serra Gaúcha, essa cultura de cooperação já faz parte da história econômica e social da região. Cooperativas, associações empresariais, entidades setoriais, instituições de ensino e diferentes comunidades construíram ao longo do tempo uma rede que influencia a maneira como os negócios se desenvolvem e como o território se posiciona.


O desafio para os próximos anos talvez não seja escolher entre o individual e o coletivo. É entender como combinar a autonomia conquistada pelas novas tecnologias com a força das relações construídas no território.


Porque, em um mundo em que fazer sozinho ficou cada vez mais fácil, saber com quem construir pode se tornar uma das maiores vantagens competitivas de um negócio — e de um território.

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